Andreia Santos
Andreia Santos Opinião

Opinião de Andreia Santos: “Danos colaterais – A Maldade”

(Não queria escrever este artigo. Não queria pronunciar uma só palavra sobre este assunto porque preferia que não existisse)

Este pensamento ocorre-me de todas as vezes no Tribunal de Menores quando lá tenho que ir por razões profissionais…

Em tempos tive oportunidade de conhecer superficialmente alguns iraquianos. Pessoas, que embora culturalmente diferentes de mim, falaram a mesma língua comigo. Conversamos pouco, em inglês, e entendi o que sentiam. E estou certa de que me entenderam. Ouvi no entanto falar muito deles e das suas vidas e em alguns momentos fui chamada a intervir.

Descrito este contexto de modo geral, serve o que escrevo para dizer que tínhamos inequivocamente um denominador comum: a preocupação com a família. No caso deles: as suas mulheres e crianças, era para elas que pediam ajuda. A segurança, a paz e a educação das suas crianças… E isto é triste. (Muitos de nós por cá nem percebemos o valor das coisas na vida que temos… reflexões enquanto escrevo também).

O Relatório da UNICEF de 2016 chama-se “No Place For Children” (Um local que não é para crianças) e no início deste ano, passados seis anos de Guerra, sabemos que: na semana passada na terça-feira no ataque químico a Idlib morreram 27 crianças, e na noite de quinta-feira com a intervenção dos Estados Unidos voltamos a perder crianças. O Relatório de Março da ONG Save The Children dá conta de um pesadelo que não podemos ignorar: “as sequelas psicológicas que o conflito provocou nas crianças aumentaram, em consequência do bombardeamento e violência, o que faz com que elas vivam continuadamente com medo. (…)

Um “stress tóxico” que tem que acabar.” Após terem sido entrevistadas 450 crianças e adolescentes sírios, o número de menores que se auto mutilam e tentam o suicídio aumentou. Na Segunda-feira passada a Revista Visão noticiou a possibilidade da existência de um novo síndrome “o da resignação” nas crianças refugiadas na Suécia. Os médicos acreditam que perante o medo de terem que voltar aos seus países de origem, os menores ficam “totalmente passivos, imóveis, sem tónus, alheados, mudos, incapazes de comer ou beber, incontinentes e sem poder de reagir a estímulos físicos ou dor.” Este fenómeno já foi observado antes nos campos de concentração nazi, entre os prisioneiros que tinham perdido toda a esperança. E isto é horrível, é maldade.

Numa intervenção psicossocial feita no final de 2016 na Síria as crianças, no meio da tragédia e do sofrimento, fizeram desenhos de esperança. O Omar do Cristiano Ronaldo desenhou o sonho de ser um dia barbeiro.

Hoje eu não sei o que foi feito dos Iraquianos com quem pude falar da vida e isso parte-me o coração. O que foi feito das suas mulheres com problemas de obesidade e das suas crianças a quem queriam enviar para Portugal. O que vamos fazer? Deixar a esperança morrer? Por favor, não!

(Deixo-vos como eu a pensar nisto e no que a Guerra na Síria e no Iraque está a fazer aos meninos e meninas que são iguais às nossas crianças, às americanas e a todas as outras…)

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