Hugo Torres Opinião
Hugo Torres Opinião Vila Verde

Opinião de Hugo Torres. “Tempos descruzados”

Muita gente não se habituou ainda a ver “o povo” fora das aldeias. Mas é aí que ele está, é aí que estamos em força desde meados do século XX. Encontro, porém, uma desculpa parcial para essa cegueira.

É que, se é certo que o camponês se urbanizou, também é certo que não abandonou os campos de vez. Visita a terra com os filhos no mês de Agosto, ou pelo menos no dia da festa do padroeiro ou da romaria local. Torna a visitá-Ia no Natal, ou na altura da matança, ou no dia do compasso. Vem ajudar e vigiar os parentes nas vindimas, na debulha e na partilha da herança. Vem casar a filha e baptizar o neto. Paga as obras necessárias para manter em pé ou melhorar a casa de família, ou então constrói casa nova para as férias, para a reforma ou para os filhos.

Visita as campas dos familiares no dia de Todos os Santos. Quando pode, faz doações mais ou menos avultadas para o restauro do relógio electrónico da igreja, para a compra de um sintetizador, para o alcatroamento dum caminho, para a festa da aldeia – à semelhança do que fazia há cem anos o fidalgo residente ou absentista.

A modernização tardia do país e este vaivém cultural dos filhos do campo estão em larga medida na raiz quer da vitalidade das festas locais e das romarias, quer do carácter “multicultural” dos programas dos festejos.

É isso também que dá uma certa substância às visões urbanas da rusticidade As festas populares contemporâneas (populares no sentido vago em que geralmente não são as festas que a maioria das pessoas das camadas sociais mais elevadas frequenta) não pertencem já à civilização camponesa, mas a um universo cultural que, para usar a expressão de Augusto Santos Silva, habita “tempos cruzados”. Esse universo, podendo dizer-se híbrido de um certo ponto de vista, só pode ser considerado pouco genuíno ou incaracterístico por excesso de nostalgia. E a hibridação não é também a destruição da “tradição” pela “modernidade”.

Tomemos um exemplo: ao mesmo tempo que a música de discoteca foi penetrando nas romarias através dos altifalantes das tendas de comércio e das pistas de carros de choque, muitas discotecas de província foram ocupando os espaços de eleição dos velhos santuários – as margens dos centros urbanos, os pinhais despovoados, as zonas de passagem, as terras de ninguém.

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