Teresa Ribeiro não gosta que a tratem como estrangeira mas regressa sempre para visitar o pai
Teresa Ribeiro não gosta que a tratem como estrangeira mas regressa sempre para visitar o pai
Destaque Vila Verde

“Podem chamar-me de avec mas antes de tudo sou portuguesa”

Foram para o estrangeiro para melhorar a vida, a maior parte há mais de 20 anos. Uns já não querem voltar, outros não pensam noutro dia que não o do regresso em definitivo. O V falou com alguns emigrantes da freguesia da Loureira, com a França como país de destino, e avec como alcunha que “não incomoda”, mas que causa algum ressentimento.

José Macedo

“Aqui tem melhorado muito. Às vezes pergunto-me porque raio é que fui para França. Lá não se vive a vida como aqui”

José Macedo foi para Grenóble há 30 anos. Nasceu em Rendufe, no concelho vizinho, mas construiu casa na Loureira, em Vila Verde. “Fui para França tentar melhorar a vida, tinha começado a fazer casa mas para ter mais dinheiro resolvi ir”, conta ao V, explicando que “anos mais tarde levei a mulher e a filha”.

O pedreiro de profissão, ou maçon, como alegremente destaca, confessa que um dia quer voltar. “Quando me reformar volto, mas os meus filhos não”, vaticina. E, como os filhos de José, também os filhos da maior parte da comunidade emigrada em França não pensa em voltar.

“A maior parte casa com pessoas de outros países e depois ficam por lá”, conta José, que admite ficar “triste com isso”. “Gostava que viessem para Portugal, mas não têm grandes condições, não têm amigos por cá, a maior parte já nasceu lá e é normal que queiram lá ficar”, aponta, deixando um desabafo.

“Quando regresso a Portugal os pelos arrepiam-se todos quando passo a fonteira. Quando sinto o cheiro dos pinheiros e do eucaliptos já sei que estou em Portugal. Quando me perguntam lá fora qual é a minha origem eu digo que não tenho origem, sou português”, vatizina José Macedo sobre o amor à pátria.

Manuel Vieira

“Se não fossem os emigrantes o nosso país não tinha nada”

Já Manuel Vieira, emigrado há 41 anos em Chambéry, pensa diferente do amigo. “Nunca mais volto”, diz decidido. “Lá vive-se muito melhor, e ainda estou a fazer uns biscates mas reformei-me há pouco”; confessa, explicando que “agora é que posso viver a vida”.

Natural da Loureira, foi para França em 73, onde começou nas obras, como tantos outros emigrantes daquela década. “Foi difícil mas consegui montar o meu negócio nas obras e tive muita gente a trabalhar para mim”, confessa o empreiteiro a quem “nunca faltou obra”.

“Os franceses gostam muito do trabalho do português”, confessa Manuel, explicando que “é isso que nos destingue das outras raças”. “Num português pode-se sempre confiar”, aponta.

Mas, e por mais amor à França e vontade de ficar que Manuel tenha, a verdade é que já está cá desde maio. “Vim em maio e volto e setembro. Estou cá no verão para aproveitar as festas mas o resto do ano vou para França e faço uns biscates e aproveito também lá a vida”, confessa.

Apesar de gostar de vir a Portugal, Manuel Ribeiro irrita-se com quem critica os emigrantes. “Há muita gente portuguesa que fala francês em Portugal, e eu sei que parece mal, mas são palavras que fogem da boca”, conta. “E não me chamem avec que eu sou é português. Aliás, se não fossem os emigrantes, o nosso pais não tinha nada”, vaticina.

Teresa Ribeiro

“Nós somos emigrantes cá e somos emigrantes lá e isso é profundamente injusto e ingrato para nós”

Este é o desabafo de Teresa Ribeiro, emigrante há 17 anos em Lyons-la-Forêt, onde trabalha numa farmácia.

Natural da Loureira, foi para França para acompanhar o marido, para melhorar a vida, mas, ao contrário de muitos emigrantes, não volta todos os anos.

“Nem sempre venho, mas quando chego fico com uma alegria imensa, só ver a placa de entrada já diz tudo”, confessa Teresa, que também lamenta o não regresso dos filhos. “Eu um dia vou voltar, mas a minha filha não, o que é uma estupidez, porque o nosso país é o nosso país e ela nasceu cá”, lamenta a emigrante.

Mas, e algo que também afeta Teresa, como aliás, quase toda a comunidade portuguesa emigrada em França, é mesmo o termo avec e a “implicância” dos portugueses quando algum emigrante diz uma palavra em francês.

“Às vezes sai-me uma palavra ou outra, e as pessoas pegam com isso, chamam-me avec“, conta, entre risos. “Eu levo na brincadeira, mas a verdade é que nós somos emigrantes cá e emigrantes lá, e é injusto porque somos portugueses e quando estamos cá gostámos de ser tratados como portugueses”, confessa a emigrante.

“Podem chamar-me de avec, mas serei sempre uma portuguesa”, finaliza Teresa Ribeiro.

José Macedo 2

“Lá falam em português e aqui em francês”

Também José Macedo confessa soltar “algumas palavras em francês” quando está por cá. “É raro, mas há uma ou outra que foge”, diz entre risos, explicando a sua teoria. “Alguns falam em francês só para se armar e até nós gozámos com isso lá em França”, diz José Macedo. “Lá falam em português e aqui em francês”, confessa, às gargalhadas.

Mas José Macedo chama a atenção dos pais que não ensinam português aos filhos. “Há algumas crianças que não falam português e é por isso que alguns emigrantes falam em francês, mas isso deixa-me triste”, confessa, finalizando com um exemplo.

“Recordo-me do caso de uma criança que não falava português e ficou em casa da avó, aqui na Loureira, e passou a tarde a chorar porque ninguém percebia o que ela queria”, aponta. “É triste”.

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