Joao Paulo
João Paulo Silva Opinião

Opinião de João Paulo Silva. “Portugal, país futefoleiro”

Há uns dias fomos todos surpreendidos com um nome: Inês Henriques. Depois de dar voltas a todos os macaquinhos que habitam aqui o terceiro andar, ganhei coragem: mas quem é a Inês Henriques? Claro que as apostas de mesa de café estão hoje sujeitas às leis do Google e, por isso, rapidamente percebi que a Inês Henriques era a nova campeã do mundo dos 50 km marcha.

Daqui, do centro de Vila Verde a Viana do Castelo são 57 e até à Trofa, nas portas do distrito do Porto, 50. Números que ajudam a enquadrar a tarefa desta mulher.

Lendo a entrevista dela ao Público, fico a saber da sua formação em enfermagem e do reconhecimento que presta aos pais: “O que eu fiz hoje foi muito duro, mas o que a minha mãe faz todos os dias é muito mais duro. Eu, às vezes, nem sei como é que ela aguenta.” E, perante estas palavras, pensei o que levará uma mulher quase com 40 anos a fazer-se à estrada para fazer uma prova de marcha que dura mais de quatro horas? Neste país?

A marcha é uma das modalidade integrada na área do atletismo que tantas alegrias tem trazido a Portugal, mas que, como todas as outras, é objeto de pouco ou nenhum reconhecimento. Vejamos, caro leitor, conhece certamente o melhor jogador do mundo? Cristiano Ronaldo, pois claro. Conhecia a Inês Henriques, que era já a recordista mundial?

Portugal tem uma péssima cultura desportiva e, até no futebol, a cultura dominante é algo primária, muito longe do fair play vivido no futebol inglês. Temos um clube tetra campeão de futebol, mas, dizem os adversários, à custa do colinho. Não se conhece um portista que reconheça a mestria do Pizzi ou um sportinguista capaz de aplaudir o génio de Jonas. Obviamente, se o acaso viesse a depositar um título nas mãos destes adeptos, teríamos igual comportamento dos adeptos do glorioso. A regra de análise é só uma: a minha equipa é sempre a melhor e, quando não vence, a culpa foi do árbitro.

Os jogos são distribuídos pela sport tv ao longo de toda a semana, nos horários mais imbecis e, todos os dias há programas para falar dos casos dos jogos de cada jornada. Futebol, futebol e mais futebol. Ou antes, futebol, futebol, árbitros e futebol…

Estarei muito perto da verdade se disser que nos nossos três canais generalistas todo o desporto português é olimpicamente ignorado, embora a TVI comece agora a ensaiar uma cobertura atenta de outras modalidades de pavilhão. Uma iniciativa que, naturalmente devemos aplaudir e acarinhar.

Claro que podemos agora recorrer à metáfora do ovo e da galinha para discutir onde começou o problema, mas será muito mais interessante olhar para o futuro e pensar se cada um de nós, como pai ou como avô quer que o seu neto seja como o Cristiano Ronaldo ou como a Inês Henriques.

A mudança de mentalidades tem que ser feita com a valorização do desporto como prática saudável, quer do ponto de vista social, quem do ponto de vista individual. Toda a sociedade deve acarinhar as diferentes práticas desportivas e deixar de colocar os olhos apenas no futebol. No pelado ou no sintético, não está aqui em causa a modalidade em si. Aliás, se não fosse o futebol, talvez não houvesse desporto em Portugal.

Mas, num tempo em que as eleições autárquicas estão aí à porta, talvez fosse interessante perguntar a cada um dos candidatos à nossa autarquia, o que pretende fazer para promover o desporto não futefoleiro? Que iniciativas vão tomar para criar modalidades que ainda não existem, o que vão apostar para que mais meninas pratiquem desporto?

Ficam as perguntas

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