Anildo Motta
Anildo Motta
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Anildo Motta. O retratista baiano que montou escritório na Rua do Souto

O largo de São Martinho, refúgio no topo da Rua do Souto, no coração de Braga, é o escritório de um retratista nascido em Salvador da Baía que há muito escolheu Braga para viver. E para retratar.

Quem desce aquela rua histórica avista as dezenas de retratos e caricaturas em exposição, com figuras mediáticas reconhecíveis instantaneamente. como que desguardadas do seu autor, sentado numa cadeira que cuidadosamente acarreta consigo, munido de lápis e uma tela onde desenha o próximo retrato, tudo à mão.

Anildo Motta, artista retratista brasileiro, não acredita sequer que algo que não seja feito à mão possa ser considerada arte. “Usar photoshop para jogar efeitos numa fotografia e imprimir para retratar, isso não é arte… Depois que apareceram esses aplicativos todo o mundo virou artista. Arte é pegar num pincel ou carvão e passar na tela”, diz o artista que não é de muitas palavras, preferindo expressar-se através da pintura.

“Saí do Brasil há trinta anos, aterrei em Lisboa e comecei a desenhar na rua. Comprei uma autocaravana e rodei a Europa. França, Espanha, Bélgica, Holanda. Agora estou em Braga há mais de três anos e foi uma boa escolha. Se tiver que sair, eu saio, mas sempre retornando”, refere o artista que reconheceu “um dom” desde os bancos da escola.

“Ah… Já faço isto desde criança. Sentia uma espécie de necessidade de gostar de arte e vivia desenhando e interessado por tudo o que fosse relacionado com pintura”, diz Anildo, revelando que o grosso dos clientes são alunos da Universidade do Minho e turistas.

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“Muito do que eu faço não é desenhar diretamente quem faz o pedido. A maior parte traz uma fotografia de outra pessoa para eu desenhar e depois entrega como presente”, conta, referindo que alguns pedem para que não assine. “Alguns pedem para não assinar. Eu ao início não fazia isso mas agora não me importo. Acho que será alguma necessidade de dizer que são eles os autores”, aponta. “Já houve até professores de artes que fizeram esse pedido”, acrescenta o baiano, que também atrai clientela por entre os turistas.

“Tem muitos turistas que querem que faça um retrato e geralmente eu fico com a fotografia e eles podem vir buscar no dia seguinte. Aqui não dá muito para fazer retrato ao vivo, fazia isso em Paris e em Barcelona, mas assim é mais simples para mim e para o cliente”, revela Anildo, descartando poses renascentistas.

“Sou mais um amante do surrealismo de Dali”, diz, sem tirar o olho da tela e sem parar de desenhar. “Desculpa não parar de desenhar mas vocês jornalistas por vezes param aqui e ficam distraindo”, aponta.

E Anildo não tem tempo para distrações. “Não me leve a mal, mas eu vou demorar cerca de oito horas para fazer este retrato e tenho mesmo de o acabar”.

Enquanto Anildo muda de lápis há um Pitbul Terrier que vai a passar, solta-se da dona aflita e derruba dois quadros, sem que, no entanto, Anildo desviasse o olhar da tela. Prontamente a dona do cão, que fora atraído pelas telas, se prontificou a erguer os cavaletes e seguiu rumo à Brasileira, um pouco à frente.

carucaturas

“Olha, o cão deitou abaixo o Passos Coelho”, referem dois homens vindos do Porto que pararam para admirar a obra e “mandar o bitaite”, à boa moda portuense.

“isto é muito bonito, é uma boa arte e acho engraçado o que ele faz com o café”, diz José Andrade, vindo de Ermesinde para “passar um dia com o patrão”. E sim, é mesmo a café que Anildo faz também alguns desenhos, aproveitando borras com que passa na tela, criando retratos quase que fotocopiados. João Costa, portuense, não entra tanto em bitaites e deixa uma opinião mais aprofundada. “Isto é realmente uma arte, o tempo que ele demora a desenhar e a perfeição com que os desenhos ficam… é uma grande arte que este senhor aí tem”, realça o empresário portuense.

E é mesmo a arte que move Anildo. “Sabe… se eu não desenhasse, seria mecânico, refere. “O que as une é a arte. Se não fosse a arte de construir um motor, a moto nunca iria andar”, aponta o baiano.

E é de mota que o retratista se desloca na cidade de Braga, a qual classifica como “uma escolha muito feliz”. “Andei trinta anos rodando a Europa e precisava de um local bom para parar um pouco e aí escolhi Braga e foi uma escolha muito feliz”, refere, aludindo à “segurança” e à tremenda evolução que a cidade sofreu nos últimos quinze anos.

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“Estive cá há 15 anos, lembro-me que nem havia o shopping, era só um supermercado. Quando voltei, há coisa de três anos, fiquei impressionado com o desenvolvimento da cidade e da forma como está agora”, diz Anildo, reforçando a “aposta em eventos” como um potencial atrator de clientes. “Há sempre atividade em Braga, no verão e no inverno e isso deixa a cidade com muito movimento, muitos turistas. Esta cidade está de parabéns”, diz.

Na vertente cultural, Anildo é da opinião que há desenvolvimento, mas não o necessário.  “A última vez que entrei numa galeria aqui em Braga apanhei uma exposição onde era tudo arte digital e olhe… jurei não voltar”, diz Anildo, achando que tanto Braga como o próprio país, embora tenham melhorado muito nos últimos anos, ainda não têm uma ideia das artes como uma componente essencial na educação. E enquanto assim for, não posso dizer que está evoluído”, finaliza, enquanto, pela primeira vez em cerca de meia hora, retira o olhar da tela para… trocar o lápis de carvão.

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