Adriana Henriques (foto de Mario Brandao)
Adriana Henriques (foto de Mario Brandao)
Cultura Destaque Vila Verde

Adriana Henriques. A criadora que escolheu Braga para explorar “liberdade total” na Arte

Das paisagens verdejantes da freguesia de Salamonde, em Vieira do Minho, nasceu uma artista plástica que hoje é uma das figuras mais reconhecidos do panorama artístico bracarense e nacional.

Adriana Henriques, artista plástica, licenciada em pintura e desenho, e curadora de exposições, não deixa os créditos por mãos alheias e é desde 2007 artista residente no grupo EDP, tendo exposições em centrais hidroelétricas, como na do Lindoso.

Com uma paixão única dividida entre o ensinar e o criar, esta vieirense tem hoje dezenas de exposições, ou da sua autoria, ou como curadora, espalhadas por Braga e pelo pais.

De Vieira do Minho traz a ligação à natureza, como explicou em conversa com o Semanário V. “Nasci em Salamonde e sempre estive ligada à natureza e ao mundo que rodeia aquela bela freguesia”, revela, explicando que “foi ali que apareceu o dom da pintura”.

“Acho que todas as pessoas nascem com um dom e depois vão desenvolvendo o mesmo. Eu adorava desenhar, pintar… Era o que mais gostava de fazer na escola primária. Aliás, tudo o que eu pudesse riscar, desde carteiras a folhas de testes, aproveitava”, conta.

Na Sala de Exposições da Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva em Braga

“Mais tarde fui para o ensino básico e secundário, mas sempre a criar. Na verdade sou mais uma criadora do que adepta do ato de desenhar em si. Gosto de experimentação de vários suportes e de descobrir novas coisas, e foi isso que fui percebendo ao longo da minha formação”, explica.

Do secundário, Adriana entrou na Escola Superior Artística do Porto, em Belas Artes, onde tirou duas licenciaturas, uma em desenho e outra em pintura. Ainda durante o curso, Adriana Henriques começou a lecionar pintura e belas artes em escolas, sendo hoje professora de pintura e artes plásticas na escola João de Deus, em Braga.

Sobre a forma de criar, Adriana revela que “muitas vezes, quando vou no comboio ou no autocarro, ouço a conversa das outras pessoas para depois, em casa, inspirar-me em alguns desses fragmentos. Guardo através do imaginário, levo esses fragmentos comigo e utilizo nas minhas obras visuais”, refere.

Entretanto, e ainda a estudar, foi nomeada diretora cultural em Vieira Minho, onde criou uma escola de pintura. “Desenvolvi o conceito de convidar artistas de norte a sul do pais a expor na escola, que era um espaço alternativo”. Isto foi entre 2006 e 2011, no centro de cultura de Vieira do Minho, período em que s se deu o “êxodo” para Braga.

Exposição para o Grupo EDP na Central Hidroelétrica do Alto Lindoso (Foto: Mário Brandão)
Exposição para o Grupo EDP na
Central Hidroelétrica do Alto Lindoso (Foto: Mário Brandão)

“Estou em Braga há 12 anos e os meus projetos estão direcionados um pouco por toda a cidade”, diz, explicando que, a nível de ensino tenta sempre “combater o normal”.

“As minhas aulas são diferentes do método tradicional. Dou liberdade total às crianças para criarem e fazer tudo o que o universo infantil oferece”, refere, explicando que nas aulas, “tudo é diferente”.

“Desenham no chão, na parede, debaixo da mesa… Tenho convidado algumas figuras da área da educação para assistir às minhas aulas e ficam maravilhados com a experiência”, revela, indicando que as crianças, geralmente dos três aos seis anos, acabam por receber “outros caminhos” para o futuro. “Não têm vícios, são livres na criação”, aponta.

Mas nem só da docência se preenche a alma desta também curadora. “Em Braga tenho um espaço que se chama Via 17 – Adriana Henriques que criei quando cheguei a Braga, em 2011”, diz. “Esse espaço é a minha incubadora de pensamento, um espaço pequenino onde apresento trabalhos de outros artistas e faço intervenções com jovens que expõe trabalho feito nos workshops que ministro”, acrescenta a artista plástica.

A também curadora da faculdade de Medicina da Universidade do Minho, onde tem uma exposição de fotografia, e do Clube de Ténis de Braga, guarda com “especial” carinho uma exposição no Hospital de Braga e outra relacionado com o projeto da EDP.

“Eu tenho dois projetos que são especiais. Um deles é no hospital. Trabalhei e criei um laboratório da cor, após três meses de investigação onde entrevistei doentes no Hospital de Braga. Falei com familiares de utentes, com doentes, com a comunidade hospitalar. A dado momento apropriei-me um espaço na sala das maquinas, cedido pelo hospital, que vai ao encontro daquilo que desenvolvo no grupo EDP, arte relacionada com máquinas”, explica.

"PICTÓRICO, LINEAR E SAÚDE" Projeto artístico de Adriana Henriques em exposição no Serviço de Cardiologia e Pneumologia do Hospital de Braga (foto: José Carlos Costa)
“PICTÓRICO, LINEAR E SAÚDE”
Projeto artístico de Adriana Henriques em exposição no Serviço de Cardiologia e Pneumologia do Hospital de Braga (foto: José Carlos Costa)

“No hospital, as máquinas são do coração, então criei um laboratório da cor. São experiências únicas. Como humanos somos tão pequninos. Entrava naquele hospital e esquecia o meu mundo atual. Que tinha familia, do que mais gosto de fazer. Diariamente via ali uma realidade escondida, a dor, a fragilidade, a angústia. Tudo o que podemos imaginar de um mundo em recuperação”, conta, revelando que a exposição criada no hospital depois dos meses lá passados ficará exposta de forma permanente na ala da cardiologia.

“As pessoas podem não perceber de imediato o que se propõe, mas mesmo que não percebam, eu sei que a composição visual é aquela a que me propus e que funciona como terapia, para mim já é positivo”, conta.

Para o futuro, Adriana Henriques têm uma exposição agendada na Corunha, para novembro e dezembro deste ano que agora entrou, algo que Adriana olha com entusiasmo. Mas revela alguma apreensão por parte das apostas culturais no nosso país.

“Tudo o que faço é a titulo independente, muitas vezes sou convidada pela instituição pública, mas acho que hoje em dia é tudo muito comercial, compra-se e produz-se em série. É tudo muito festivo, muito comercial”, aponta.

“A arte contemporanea não é muito fácil, não se dá destaque, e em Braga, por exemplo, trabalha-se muito os ranchos folclóricos. Acho que se deve trabalhar as nossas raízes, mas também dar oportunidades aos criadores, porque temos jovens com muitas competências e saem da nossa cidade indo para os grandes centros porque não há apoios”, finaliza.

Como conclusão, Adriana Henriques não tem dúvidas. “A melhor profissão do mundo é ser artista! Sou livre de criar e dizer tudo aquilo que penso através da minha obra”.

Print Friendly

Comentários

Siga-nos!

RSS
Follow by Email
Facebook
YouTube

Última edição

Já nas bancas!

Publicidade