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Andreia Santos Opinião

Opinião. “Essência”

Dos dias bonitos guardamos a força, a vontade de olhar para a frente e esperar o futuro. Está um dia bonito, há sol. Mas mesmo quando chove e não existe a luz do dia de hoje, dos dias bonitos nós guardamos promessas que fazemos a nós mesmos enquanto indagamos o céu. Janeiro está achegar ao fim, mas já trouxe tempo de viver inspirações para o que virá a seguir.

Nos últimos tempos tenho-me dedicado a estudar a solidão. Tenho dado atenção, não apenas ao estar só por ausência de relacionamentos positivos em contextos sociais, mas também ao isolamento objetivo no local de trabalho. (Existe uma diferença entre estar realmente só e a solidão subjetiva). Este fenómeno parece estar a aumentar e com consequências devastadoras para as pessoas. George Monbiot escreveu em 2014, “a idade da solidão está a matar” e… será verdade… dizia ele: “parece que já não falamos sobre pessoas, mas sobre indivíduos…” Isto chateia-me. Não uma chaticezinha que passa, mas um aborrecimento revoltado que cresce dentro de mim. Há muito que transformar e esta será uma missão de todos, incluindo os colaboradores de uma empresa.

Os estudos sobre a solidão no local de trabalho são recentes. Quando os trabalhadores se sentem excluídos pelos outros e privados de relações de proximidade isto traz consigo sentimentos de rejeição, não pertença, insatisfação laboral, má performance. Este tipo de sentimentos reduz o compromisso afetivo e aumenta a atitude superficial entre coworkers. Pior que isto, este fenómeno poderá ser consciente. Em última instância, o colaborador sozinho poderá abandonar a organização. “Não é que o meu patrão seja má pessoa ou que os meus colegas o sejam, até gosto do que faço, mas sinto falta de ter uma conversa com outro ser humano…” É, o incentivo é para o cumprimento dos objetivos, no alcance das metas pessoais, para o “make it happen”, falamos cada vez mais com os nossos gadgets, olhamos cada vez menos para o lado… Mas, voltando ao tanto que isto é chato (para não dizer estúpido e medíocre), nenhum destes propósitos tem que ser incompatível com a compaixão ou a empatia, com o ser real, certo? Confesso que nutro uma antipatia desmesurada por tudo o que é só para “ficar bem na fotografia”, por tudo o que não é sério por ser genuíno.

A aposta a fazer-se é sempre a do regresso da simplicidade, da essência. Dizer o que se sente, transmitir o que se pensa, olhar para o outro e compreender que, por muitas mais valias que o digital traga, nunca será capaz de substituir o analógico, a verdadeira vantagem da presença humana. Os dias bonitos são mesmo bonitos, não o são porque está sol… O que quero dizer é básico: sentir faz falta, antes de fazer. Partilhar. Divertir. Reunir. Levar em consideração a personalidade do colaborador, a sua forma de estar, perceber a sua compatibilidade ou não com a cultura.

É importante trabalhar o sentimento de segurança psicológica nas empresas, cada vez mais. Um amigo, fala regularmente em “salário emocional”. A confiança interpessoal é o desígnio de uma boa organização. Posso-vos dizer que os dias bonitos são feitos da participação de colaboradores que sabem que antes de ser profissionais são pessoas e vulneráveis, que essa é a sua maior arma e diferença. São estas as pessoas que identificam e se preocupam em ajudar colegas a construir relacionamentos, que sabem reconhecer as características e papel do outro e dizem obrigado por ajudares, por estares aqui, pelo que fizeste… Posso-vos dizer que os meus dias quero-os assim, sem chatice, cheios de cor como hoje. Que gosto do que resulta , por ser íntegro e sobre nós. Feliz Fevereiro! Até já.

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Andreia Santos

Andreia Santos

Psicóloga Clínica e da Saúde Formadora Profissional

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